• Silvio Bianchi

Ticket Restaurante e Vale Alimentação. Fazemos bom uso deles?



A venda de créditos do Ticket Restaurante e do Vale Alimentação continua, apesar de ter sido divulgado amplamente que essa prática é considerada estelionato. No Blog do BEM já publicamos uma matéria sobre este tema: Ticket Restaurante e Vale Alimentação. Vender ou não vender?


As últimas pesquisas sobre a utilização destes benefícios mostraram que 4 em cada 10 pessoas que os recebem costumam vender parte o todo seu saldo de créditos. E se perguntar por que fazem isto: porque o salário não alcança, porque o benefício e pouco, porque precisa pagar outras contas, para poder comprar outras coisas e até para guardar dinheiro.


Quando se vende este benefício, o comprador faz um desconto que oscila entre 12% e 15%. Esta taxa é sensivelmente superior à taxa mensal de juros paga para parcelar a fatura do cartão de crédito.


Na hora de argumentar sobre “por que você vende seus créditos?” ouvimos estas respostas:


- Dinheiro na hora, sem perguntas. Esse é um dos argumentos mais utilizados quando os vendedores são questionados. Para obter um crédito dentro do sistema financeiro se deve atravessar a “Via Crucis” do nome limpo, da declaração de rendimentos, de conseguir possíveis fiadores ou de um bem como garantia. Muitos preferem pagar uma taxa, mesmo sendo elevada, e utilizar esse recurso à vontade.


- O valor é muito baixo, não é suficiente. Quando o beneficiário sente que “não dá pra nada” prefere utilizar esse “pequeno” recurso em algo “mais importante” como lazer ou pagar alguma conta menor.


Se existem alternativas mais baratas, por que uma parcela importante de trabalhadores paga uma taxa de juros maior para obter dinheiro de terceiros e, além de tudo isso, de forma fraudulenta?


Contabilidade mental

“Cara, eu não sou contador! O que é isso de contabilidade mental?” Richard Thaler, prêmio Nobel de Economia no ano 2017 aborda este tema no seu livro “Misbehaving” (Comportamento Inadequado, em português).


Nosso cérebro tem seu “sistema de contabilidade” que consiste em criar “caixinhas” onde aloca recursos. Essas caixinhas são identificadas, às vezes, pela origem do recurso (salário, benefício, prêmio de loteria, presentes) e outras vezes pelo destino (alimentação, moradia, lazer, saúde etc.).


O risco deste tipo de contabilidade é de que as categorias e sua importância dependem muito de avaliações subjetivas e irracionais. Por exemplo: o dinheiro que vem da origem “salário” é considerado mais importante do que àquele que vem da categoria benefícios que, pela sua vez, parece ser mais importante que àquele que vem das categorias “prêmios de loteria” ou “presentes”.


Quando avaliamos essas caixinhas com relação ao seu destino, esta avaliação está fortemente influenciada pela situação do momento. Exemplo: seu salário acaba de ser depositado na sua conta, sensação de “barriga cheia”. Recebe um convite para sair com amigos e você sabe que essa saída terá um custo. O que pesa mais na hora de falar “sim” para esse convite: as contas de aluguel, condomínio, saúde, alimentação etc. ou um momento de relax, de papo descontraído, com “somente alguma bebida”, reforçado pelo “eu mereço relaxar às vezes”? Por isso dói tão pouco “torrar” o vale refeição. Ah! Já verificou se não deveria comprar alguma roupa para a saída com os amigos?


A escassez

Somos seres irracionais tentando raciocinar e situações de muita pressão reduzem mais nossa racionalidade. Essa é a proposta de Sendhil Mullainathan e de Eldar Shafir no seu livro “Scarcity: Why Having Too Little Means So Much” (Escassez. Uma nova forma de pensar a falta de recursos, em português).


Em situações de muita pressão, focamos no “problema”, procuramos sua solução, negligenciamos (esquecemos) as demais consequências dessa decisão e agimos. Mullainathan e Shafir fazem a analogia com a entrada num túnel. Dentro do túnel somente focamos no problema e sua solução, sem considerar mais nada.


Falta dinheiro, existe saldo no Vale Refeição/Alimentação, vendo o crédito apesar de ser crime (pois não considero isso) e “tenho dinheiro”. Assim, podemos explicar este processo a partir do ponto de vista comportamental.


Em vez de justificar, como fazer diferente?


As coisas por seu nome. O Vale Refeição/Alimentação é uma ajuda de custo para você se alimentar e precisamos nos alimentar todos os dias. Por que utilizar esse valor para outras coisas? O vale permite comprar alimentos para serem preparados em casa, não somente comida no restaurante. Pensar assim eleva a importância da categoria do Vale Refeição/Alimentação para a mesma que o salário.


Divida o crédito mensal entre os dias laborais do mês. Isso lhe dará uma ideia de quanto dispõe por dia para se alimentar quando trabalha. Assim, se esse valor não for suficiente, você somente deverá complementar a diferença com seu salário.


Planeje suas refeições. Existe um refeitório onde você trabalha? Pode levar sua comida de casa e comer no seu posto de trabalho? Pensou em fazer do café da manhã a principal refeição do dia e com uma refeição menor no almoço “subsistir” até chegar em casa?


Leve comida de casa. Em todas as situações, privilegie levar comida preparada em casa. O custo de uma refeição fora equivale, mínimo, a duas refeições preparadas em casa.


Privilegie a comida por quilo. Se não puder levar comida preparada em casa, os restaurantes por quilo são mais econômicos do que os restaurantes “à la carte”. No quilo você seleciona mais os alimentos com os nutrientes adequados a sua dieta.

Atenção: o tamanho dos pratos de muitos restaurantes por quilo é maior ao dos que utilizamos nas nossas casas. Sabe por quê? O tamanho influencia a quantidade de comida que você coloca. Prato maior estimula a você colocar mais comida para assim “encher o prato” e sentir que não vai ficar com fome. Se não comer tudo, o que fica no prato chama-se DESPERDÍCIO!


Cuidado com as bebidas, sobremesas e cafezinho. Esses “complementos” quando comemos fora elevam o preço da refeição sensivelmente. Você bebe refrigerante em todas suas refeições em casa? Não dá para beber água quando voltar para o serviço? Poderia aguardar para comer a sobremesa em casa após a janta? E o café ... não tem no serviço?


Organize seu orçamento pessoal ou familiar. Este é o pilar fundamental para poder utilizar seus recursos da melhor forma. Em vez de organizar seu padrão de vida segundo o que você gostaria, segundo o que seus amigos e conhecidos fazem ou respondendo às pressões familiares, foque no que você pode fazer com seus rendimentos atuais, não se endividando para consumir mais.


Para alcançar este último objetivo, o BEM Financeiro tem o programa BEM Agora que lhe ajudará a organizar seu orçamento e iniciar o caminho que o levará à sua liberdade financeira e a ficar de BEM com às suas finanças.


Aprender a viver dentro do nível de recursos que recebe demanda incorporar novos comportamentos, pois viver com equilíbrio financeiro não depende da quantidade dos seus rendimentos, mas de como usa eles.


Cuide de como você age e perceberá que seus recursos duram mais.

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Silvio Bianchi é Pós-graduado em Educação e Coaching Financeiro, Contador Público, Master Coach, Coach Financeiro, Treinador e Palestrante. Cofundador de Bem Financeiro – Desenvolvimento em Finanças, responsável pelo escritório em São José dos Campos.

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