• Silvio Bianchi

Está preparado para usar o crédito?

Atualizado: há 2 dias





Imagem: nneem por Pixabay


Assim como o fogo, o crédito é um bom servente, mas é um péssimo comandante. Quando usado a seu favor ajuda no seu crescimento, porém, se mal utilizado você pode perder tudo.


No início, o crédito somente era utilizado formalmente pelas empresas para transações comerciais e, com menos formalidades, pelas pessoas em algumas vendas fiado (padaria, açougue, quitanda). Para as primeiras existiam as formalidades do contrato de crédito, já para o fiado a garantia era a reputação de quem comprava e o registro na “caderneta de fiado”.


Mas, com o passar do tempo, os bancos e entidades financeiras perceberam que emprestar dinheiro era muito rentável e o acesso ao crédito foi se flexibilizando, ao ponto de receber pelos correios cartões de crédito nunca solicitados.


Com a popularização do crédito e das campanhas de marketing ressaltando os

benefícios de comprar agora e pagar depois, o servente virou comandante e os problemas começaram.


Riscos de utilizar o crédito

A maioria das pessoas acredita que o risco de utilizar o crédito é o endividamento ou superendividamento e suas consequências patrimoniais e financeiras, assim como os impactos na saúde física, emocional e relacionamentos.


Poucos param para pensar que o crédito também pode criar uma dependência similar à criada por certas drogas, o álcool ou o tabaco.


Uma das particularidades menos divulgadas do crédito é de que funciona como um sedativo tarja preta, pois pode criar tolerância e dependência. Sedativo de que? Acalma a dor do pagamento.


Já imaginou que pagar com uma nota e receber uns trocados (abrir mão dessa nota) seria equivalente a receber uma espetada no braço? Pesquisas mostraram que, pagar com dinheiro vivo ativa no nosso cérebro a mesma região que se aciona por causa de uma dor física. Ou seja, pagar com dinheiro doe e isso se chama “dor do pagamento”.


A principal característica do crédito é de que ao assinar o formulário para receber um crediário ou digitar a senha do cartão, nosso cérebro não está abrindo mão de nada e, portanto, não está sofrendo pela perda. A isto se soma toda a dopamina (neurotransmissor do prazer) gerada pela compra desse bem ou serviço desejado.


Resumindo: utilizando o crédito, compra o que deseja já (não aguarda) sem necessidade de abrir mão de dinheiro algum. Estamos no melhor dos mundos, pois somente tem a ganhar!


Devo, não nego, pago no cartão [1]

Os riscos da utilização do crédito aumentaram quando o uso do cartão de crédito se popularizou.


Quando pagamos com o cartão de crédito:

  • Se separa o momento do consumo (compra do bem ou serviço) do momento do pagamento;

  • Torna nosso horizonte financeiro menos claro, pois o pagamento será dividido e jogado para o futuro;

  • Torna nossos custos de oportunidade mais indistintos, pois não paramos para pensar no que poderíamos ter que deixar de pagar (conta de água, luz, saúde ou alimentação) para realizar essa compra;

  • Reduz a dor do pagamento atual.

Consequência disto é que ficamos mais dispostos a pagar, fazemos compras maiores (pense na ida ao supermercado...), deixamos gorjetas mais altas, subestimamos ou esquecemos quanto gastamos e ... tomamos decisões de compra más rápido.


Como usar o crédito ao seu favor

Assim como os sedativos, o crédito pode ser utilizado quando necessário, mas com precauções.


Eduque-se financeiramente. Informe-se sobre as ferramentas financeiras de uso mais comum (crédito, crediário, cartão de crédito, Pix), como utilizá-las, das suas vantagens e dos seus riscos. Assim como lê o manual de uso do seu celular, procure se informar sobre como utilizar estas ferramentas corretamente.


Organize seu orçamento. Saiba quanto recebe líquido, quais são suas despesas básicas (as necessárias para sobreviver), suas despesas supérfluas (àquelas menos importantes que as básicas) e quais são as parcelas a pagar (no mês atual e nos meses seguintes).


Ao comprar parcelado, compromete rendimentos futuros. Cada vez que compra parcelado está comprometendo rendimentos que ainda não recebeu (ao comprar por R$100,00 em 4x, está comprometendo R$25,00 dos próximos 4 salários). Saiba quanto já comprometeu dos seus futuros rendimentos e, assim, evitará ter que pagar mais do que receberá.


Planeje suas compras. Organizando seu orçamento saberá quanto tem disponível depois de pagar suas despesas básicas, as parcelas de compras anteriores e as despesas supérfluas. Para agregar uma nova despesa e poder manter um orçamento saudável (gastando menos do que recebe), deverá verificar que esse novo valor cabe dentro do orçamento atual e dos futuros.


Se pergunte: quero ou preciso isso? Muitas vezes nossas compras são definidas por pressões sociais, familiares ou pela propaganda agressiva. Antes de decidir uma nova compra, pare, respire fundo e se questione sobre quais os benefícios dessa aquisição. Uma dica: deixe passar 24 horas e se questione novamente!


Tenha objetivos. Objetivos de curto, médio e longo prazo funcionam como uma bússola, pois indicam o caminho que você decidiu seguir. Portanto, o que é realmente importante para você? Quanto isso custa? Quando vai acontecer? Essas respostas facilitarão demais o “NÃO” para aquelas compras que menos importantes.


Se for comprar parcelado ou contratar um financiamento, a parcela deve caber no orçamento. Como já falamos, lembre-se que parcelar significa comprometer rendas futuras e o futuro é incerto. Portanto, não adianta sair comprando porque vai dividir em muitas parcelas “pequenas” e essas parcelas não caberão dentro dos restantes meses. A compra virará pesadelo e o endividamento baterá na porta!


Crie uma reserva. Ter uma reserva protege seus objetivos assim como seu orçamento. Dado que o futuro é incerto, ofereça-se a possibilidade de poder enfrentar uma eventualidade sem se endividar para resolvê-la. Também, em caso de uma diminuição na renda, poderá honrar as parcelas já contratadas.


O crédito com planejamento, organização e cuidado pode ser uma excelente ferramenta para alcançar novos objetivos e, no médio ou longo prazo, aumentar seu patrimônio. Mas sem os cuidados necessários pode virar dependência e pesadelo.


Seu BEM é o nosso plano!

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Silvio Bianchi é Pós-graduado em Educação e Coaching Financeiro, Contador Público, Master Coach, Coach Financeiro, Treinador e Palestrante. Cofundador de BEM Financeiro – Desenvolvimento em Finanças, responsável pelo escritório em São José dos Campos.

[1] Dan Ariely e Jeff Kreisler – A Psicologia do Dinheiro [versão para kindle], Editora Sextante, 2019.

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