• Silvio Bianchi

Com cartão, mas sem educação... financeira!

Atualizado: 30 de mar.

Existem várias iniciativas no mercado oferecendo cartões de crédito, para crianças e jovens. A justificativa é de que, dado que o “dinheiro virtual” (cartões de crédito e débito, Pix) é uma realidade e que, provavelmente no futuro será a única moeda, é bom que eles sejam inseridos desde já nesta realidade.


imagens: br.freepik.com

Acredito que essa prática, sem um contexto específico de educação financeira, irá gerar mais danos do que benefícios. Para se utilizar bem essas ferramentas de pagamento, a criança/jovem primeiro deve “sentir” o que é ter uma quantidade de dinheiro (moedas ou notas). Poder contar a quantia disponível e o que restou após uma determinada compra, é o início do processo de aprendizagem para controlar o dinheiro.


O dinheiro já é um conceito abstrato, pois o papel moeda representa um valor, o poder para comprar algum produto ou serviço. E, quando se fala de poder, é necessário saber administrá-lo.


Dan Ariely e Jeff Kreisler, no seu livro: A Psicologia do Dinheiro[1] detalham quatro características especiais do dinheiro (genérico, divisível, intercambiável, armazenável) que o tornam útil, mas também são “a fonte das suas maldições”.


Antes da criança ou jovem se embarcar na utilização da moeda virtual, é imprescindível que vivencie a experiência de controlar o “dinheiro real”. Ter uma certa quantidade de dinheiro (inicialmente, moedas), usá-las para comprar coisas e sentir que cada cosa comprada reduz esse estoque de dinheiro. Sentir a “dor do pagamento[2]”, se controlar (ou não), ter que priorizar (compro isso ou aquilo?), guardar uma quantidade de dinheiro por um tempo para comprar algo, são etapas (dentre outras) a serem vivenciadas antes de começar a usar o dinheiro virtual.


A partir dos sete anos, é recomendável que a criança receba uma quantidade semanal ou mensal (semanada ou mesada) para administrar. Essa quantidade deve ser em dinheiro vivo (notas ou moedas). Assim, começará a conhecer o valor do dinheiro e aprenderá gradativamente a como controlá-lo.


Uma vez que o(a) jovem é educado(a) financeiramente e aprendeu a controlar o dinheiro vivo, pode ser o momento para começar a ser orientada sobre o uso do dinheiro virtual (cartão de débito, Pix). Depois, e só então, aprenderá a utilizar de forma consciente o crédito.


Educação Financeira, sem dúvida alguma, deve ser a base. Queimar etapas e permitir que crianças façam uso de um poder que não foram ensinadas a controlar irá contribuir na formação de futuras gerações de pessoas endividadas e consumistas.


Um comentário final: o principal argumento das empresas que oferecem o cartão de crédito para crianças é a “oportunidade de dialogar sobre o dinheiro com seus filhos”.


Porém, essa responsabilidade é repassada aos pais que, provavelmente, não foram educados financeiramente e sofrem com o tema de controlar o dinheiro, o cartão de crédito, planejar o orçamento, priorizar despesas e demais, sem contar que também deverão arcar com os custos do cartão de crédito das crianças/jovens.

--- Silvio Bianchi é Contador Público, Pós-graduado em Educação e Coaching Financeiro, Master Coach, Coach Financeiro, Treinador e Palestrante. Cofundador de Bem Financeiro – Desenvolvimento em Finanças, é responsável pelo escritório em São José dos Campos (SP).

[1] Dan Ariely e Jeff Kreisler – A Psicologia do Dinheiro, Ed. Sextante (capítulos 1 e 2) [2] Silvio Bianchi – Está preparado para usar o crédito?, Blog do BEM: link para o artigo Sob o subtítulo: Riscos de utilizar o crédito, falamos da “dor do pagamento”.

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